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Riscos Interditos

 

O Norte e o Lugar, nova individual de André Rigatti, marca um momento de transformações e (por que não?) crise, num bom sentido, na produção do artista catarinense que se radicara em Curitiba. Pois em breve ele se instalará em Porto Velho, Rondônia, dando adeus ao Sul e fincando raízes no Norte deste país continental. A grande mudança não deixa de contaminar as telas apresentadas agora na galeria Ybakatu, na capital paranaense.

 

Por outro lado, O Norte e o Lugar atesta, mais uma vez, o contexto positivo em que a pintura se desenvolve atualmente no Brasil. Por tantas cidades e formações, é admirável a multiplicidade de investigações no meio e a consistência dessas proposições artísticas Brasil afora.

 

Posto essas duas linhas, expliquemos um pouco mais. Em mostras anteriores, como a apresentada no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo, no ano de 2012, Rigatti parecia dar ao observador um vislumbre do além-superfície, do extraquadro, “buracos”, como ele mesmo frisa, que se ligavam a uma cultura do fragmento, do não absoluto, do antiépico. Neste plano fora do chassi, o público poderia encontrar silhuetas de skylines, traços de telhados assobradados. Porém, sob outra visada, também projeções e rebatimentos de figuras geométricas com ritmos e elos próprios.

 

Em O Norte e o Lugar, o artista rasga tais procedimentos e parte para efeitos mais físicos e relacionados ao que podemos chamar de ‘assunto pictórico’. Nos trabalhos de menor escala, em especial, linhas construídas pela deposição constante de camadas de tinta formam e sugerem alguns horizontes. O gênero paisagem, assim, é mais evidente e sobressai. Em um jogo de sedimentação e extirpação, construção e destruição, Rigatti utiliza procedimentos variados, alternando o uso do óleo e da acrílica, além da criação de campos de cor e a aceitação de acidentes mais próximos ao universo gráfico que ao pictórico. Nesses duelos esparramados em tais superfícies, vários duos têm embate: o abstrato e o figurativo, o orgânico e o geométrico, o matérico e o transparente, o carnal e o asséptico, a memória e a ‘página’ em branco, o grosso e o tênue.

 

Pois dessa ‘crise’ advinda da mudança, algo alquímica, a obra de Rigatti pulsa por sobre um vetor poético instável. Parece perceber a infinidade e o sem número de possibilidades em um mundo transbordado por imagens e informações, em circulação e velocidades recordes. É o campo de uma pintura expandida, que flerta com o tridimensional (não seria claramente para onde os ‘buracos’ anteriores caminhavam?), pisca para o desenho e, ao mesmo tempo, potencializa o mais singular do pictórico.

 

Num contexto mais amplo, a sólida obra do artista também encontra ecos em pares de geração e de linguagem, a destacar os de fora do eixo Rio-SP. É o feminino de Clarice Gonçalves, em Brasília, o fantástico e o autobiográfico de Thiago Martins de Melo, em São Luís, a expressão potente de Gelson Radaelli, em Porto Alegre, o imaginário refletido de Alan Fontes, em Belo Horizonte, entre tantos outros exemplos. Todos com pesquisa forte e resultados poéticos muito interessantes, mesmo que, por vezes, não ganhem tanta visibilidade.

 

E como a Amazônia ressoará em Rigatti? Ele optará por outros meios na trajetória? Algumas questões podem ser colocadas à tona, e as respostas, caso venham, devem apontar para outros nortes, movediços e inquietantes.

 

Mario Gioia - 2014

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Interdicted Risks

 

The North and the Place, André Rigatti's new individual, marks a moment of transformation and (why not?) Crisis, in a good sense, in the production of the Santa Catarina artist who had settled in Curitiba. For soon he will settle in Porto Velho, Rondônia, saying goodbye to the South and taking root in the North of this continental country. The big change nevertheless contaminates the canvases now presented at the Ybakatu gallery in the capital of Paraná.

 

On the other hand, O Norte e Lugar confirms, once again, the positive context in which painting is currently developing in Brazil. For so many cities and formations, it is admirable the multiplicity of investigations in the middle and the consistency of these artistic propositions throughout Brazil.

 

Putting these two lines together, let's explain a little more. In previous exhibitions, such as the one presented at the Maria Antonia University Center in São Paulo in 2012, Rigatti seemed to give the viewer a glimpse of the afterglow, the extra-frame, “holes”, as he himself points out, that connected with a culture of the non-absolute fragment of the antiseptic. In this out-of-chassis plane, the public could find silhouettes of skylines, traces of rooftops. However, from another point of view, also projections and rebounds of geometric figures with their own rhythms and links.

 

In The North and the Place, the artist rips such procedures and departs for more physical effects and related to what we might call the 'pictorial subject'. In smaller scale work, in particular, lines constructed by the constant deposition of paint layers form and suggest some horizons. The landscape genre, thus, is more evident and stands out. In a game of sedimentation and extirpation, construction and destruction, Rigatti uses various procedures, alternating the use of oil and acrylic, as well as the creation of color fields and the acceptance of accidents closer to the graphic than the pictorial universe. In these duels spread on such surfaces, several duos have clash: the abstract and the figurative, the organic and the geometric, the material and the transparent, the carnal and the aseptic, the memory and the blank page, the thick and the dark. tenuous.

 

Because of this 'crisis' arising from the somewhat alchemical change, Rigatti's work pulses over an unstable poetic vector. It seems to perceive infinity and endless possibilities in a world overflowing with images and information, in circulation and at record speeds. It is the field of an expanded painting, which flirts with the three-dimensional (wouldn't it be clearly where the previous 'holes' walked?), Blinks into the drawing and, at the same time, enhances the most singular of the pictorial.

 

In a broader context, the artist's solid work also finds echoes in generation and language pairs, highlighting those outside the Rio-SP axis. It is the feminine of Clarice Gonçalves, in Brasilia, the fantastic and autobiographical of Thiago Martins de Melo, in São Luís, the powerful expression of Gelson Radaelli, in Porto Alegre, the reflected imagination of Alan Fontes, in Belo Horizonte, among many others. examples. Everyone with strong research and very interesting poetic results, even if sometimes they don't gain so much visibility.

 

And how will the Amazon resonate in Rigatti? Will he opt for other means along the way? Some questions may be raised, and the answers, if they come, should point to other north, shifting, and unsettling.

 

Mario Gioia - 2014