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trago nesse espelho o vento, as palavras e a pele
 

Após muitos anos, André Rigatti retorna ao circuito artístico de Curitiba trazendo uma vasta e intensa trajetória, marcada por pós-graduação, residências artísticas internacionais, exposições e docência universitária. Nesta sua primeira exposição individual desde seu retorno a Curitiba, ele revela, com renovado frescor, a produção que nasce dessa volta ao mundo, sem aban- donar os temas centrais que permeiam seu trabalho nas linguagens da pin- tura e da gravura: o espaço, o urbano e a subjetividade.

Em um diálogo sensível entre as 10 gravuras em metal e as 13 pinturas em serigrafia, acrílica e óleo sobre tela, de variados formatos, André explora os elementos formais da cor e a inserção de palavras que escapam da verbali- dade convencional.

As pinturas, algumas monumentais, confrontam o gesto controlado e a textura lisa com a “sujeira” e o peso desfocado do spray de grafite, criando um efeito “all-over” que é organicamente sobreposto por materialidades que es- correm. Esse entrelaçamento provoca uma fricção visual entre formas amor- fas, desafiando a tradicional percepção ocidental de figura e fundo. O que parece figura, como campo delimitado carregado de inserções pictóricas e gráficas de desenhos da arquitetura chinesa e pixação urbana dos muros da cidade, é, na verdade, o fundo, gerado também por impressões serigráficas de palavras e gráficos. O amplo espaço colorido, brilhante e com texturas escovadas verticais é o que vem por cima. A espessura e as várias camadas da técnica glosse da pintura holandesa do século XVII, apenas a partir de um olhar atento e contemplativo, decifram esse trompe-l’oeil. As cores desse céu expansivo trazem a ideia de uma abóbada celestial urbana na hora do pôr do sol, do arco-íris ou do firmamento esplêndido da aurora boreal, esta última vivenciada por Rigatti na Finlândia. Esses fenômenos luminosos não vêm como uma ideia romântica, mas sim enquanto um aspecto conceitual sobre a convivência no espaço urbano de um prédio alto: o lugar onde o ar- tista está. A presença do azul remete à cor da casa onde era o ateliê dele, na Rua José Loureiro, no centro de Curitiba, nos idos de 2012. Bem como, o ar- co-íris em uma obra ou em um conjunto de obras, em especial, faz sutilmen- te alusão à bandeira LGBTQIAPN+, um posicionamento claramente político em prol da diversidade. Do controle ao descontrole, do meticuloso e exato ao pesado e carregado, do sofisticado ao bruto violento, da forma mecânica à gestualidade, toda pintura se transforma em corpo, carne e pele, marcada pelas cicatrizes do tempo como campo de debate.

As gravuras em metal, realizadas por processos altamente complexos da água-tinta, com vários tratamentos químicos até a aplicação da cor na ma- triz e sua impressão, geram um diálogo intenso com as pinturas. A comple- xidade das gravuras advém do domínio técnico do artista que, ao mesmo tempo da cronometragem exata e metódica, assume o acaso descontrola- do. Rigatti usa diferentes procedimentos na gravação, como o “marbré”, a aplicação serigráfica de palavras junto à gravação das matrizes ou o uso de um disco para gerar, a partir da espessura do objeto, um relevo. As cores, com diferentes tonalidades, em consonância com as pinturas, provocam um efeito pictórico. Nesse conjunto de gravuras, as letras presentes estão embaralhadas ou espalhadas, negando um fluxo de leitura. O momento da impressão é algo mágico, porque nunca haverá certeza de como vai sair o trabalho. Assim, as gravuras incorporam um estado suspenso que Rigatti considera como meditação.

O título da exposição é inspirado nas músicas “Vermelho”, de Marcelo Ca- melo, e “Das palavras à pele”, de Phill Veras, reforçando a subjetividade a partir do verbo na primeira pessoa do singular, enquanto sujeito que se coloca.

Por meio de uma técnica complexa, tanto nas pinturas quanto nas gravuras, André Rigatti insere a paisagem urbana e o espaço arquitetônico como um topos social e político que indica sutilmente uma socialidade que está atrás como um vento.

Trago no reflexo o sopro, os verbos e a carne.
 

Stephanie Dahn Batista, 2026

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