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Espaços Plenos
André Rigatti – Museu de Arte Contemporânea do Paraná - MAC/PR.


A leitura do presente texto pode ocorrer em duas circunstâncias distintas – junto aos trabalhos do artista, no Museu de Arte Contemporânea, ou longe deles, tanto espacial como temporalmente. Ambas as situações distanciam o leitor da obra, mantendo perante os seus olhos apenas vestígios da mesma. Discussões mais aprofundadas sobre as implicações dos meios de reprodutibilidade técnica sobre a obra de arte estão ocorrendo desde a década de 30 do século passado, tendo como eixo fundamental os escritos de Walter Benjamim; contudo, decorridos quase 80 anos do estopim deste debate, o tema ainda é bastante pertinente e, no caso das obras aqui reproduzidas, fundamental. Os trabalhos de André Rigatti solicitam a presença física de um sujeito para que se configure uma experiência estética; não que isso não ocorra com a imensa maioria dos trabalhos de arte, mas, nesse caso, perante uma reprodução, as qualidades mais delicadas e elementares da obra estarão perdidas.

É um trabalho que se apresenta como um corpo perante outro, dirigindo-se ao olhar. Pede proximidade e tempo. Proximidade necessária, por exemplo, para que seja possível distinguir os elementos que compõe uma série produzida com vinil adesivo sobre papel – linhas brancas, aplicadas sobre fundo branco, articuladas a poucos fragmentos de cor. Destacadas do papel apenas por uma sutil diferença de textura e espessura, as linhas sinuosas descrevem percursos, cuja harmonia esconde um processo de produção quase mecânico, descrito pelo artista – uma superfície em forma de meia-lua tem suas bordas destacadas com um bisturi, gerando pequenas curvas, finas, levemente irregulares. Agrupados em linhas, com leve afastamento entre eles, os fragmentos passam a descrever uma nova configuração sobre a superfície porosa do papel. Embora cada corte guarde ainda o índice da superfície original, a disposição imposta inviabiliza a sua remontagem. Superfície que se converte em linha para dialogar com a superfície.

Ao tratar uma das etapas de produção do trabalho a partir de uma ação repetitiva, o artista recupera um questionamento presente na história da arte desde a década de 60, acerca do caráter expressivo da obra. No entanto, o resultado obtido com esta ação, um conjunto de pequenas curvas em vinil, é tratado com grande sensibilidade a seguir quando, aplicadas sobre o papel, as peças assumem um aspecto compositivo, expressivo. Considerando o resultado da ação poética e o seu processo de realização, observamos uma obra que instaura uma possível articulação entre pontos extremos de um debate artístico, entre a unicidade e a repetição, entre a subjetividade e a frieza, normalmente associada à produção em série, entre a sensibilidade e o contexto de produção da obra de arte.

As delicadas linhas coladas potencializam o seu suporte, ressaltando sua cor, textura, trama, de modo que, ao escrever sobre estes trabalhos, salientar o uso do espaço vazio soa contraditório. São espaços plenos. 
O papel, suporte destas delicadas colagens, torna-se também a base para receber outra matéria muito distinta, a tinta à óleo. Encoberto agora por uma camada de cor, o papel é revelado em pequenas áreas, que nos permitem ver características da matéria nos leves resíduos de gordura que invadem os espaços brancos e, na espessura da tinta, disposta em camadas, em procedimentos similares aos usados com o vinil, com pinceladas regulares. Também aqui as áreas de cor parecem ficar em uma situação limite, entre a gestualidade expressiva e processos industriais de pintura, que geram superfícies planas.

Se desde as experiências modernas as categorias artísticas perderam seus contornos rigorosos, parece inócuo chamar essas obras de desenho ou pintura. No entanto, em relação aos processos de produção do artista, podemos pensar em propostas que discutem o desenho e a pintura, mas que também propõem às pessoas uma experiência estética mais lenta, delicada, subjetiva. Um corpo sensível perante outro. Uma experiência que não pode ser substituída, apenas compartilhada.

 

Simone Landal - 2008

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Fullness Spaces

André Rigatti - Museum of Contemporary Art of Paraná - MAC / PR.

 

The reading of this text can take place in two different circumstances - together with the artist's works at the Museum of Contemporary Art, or far from them, both spatially and temporally. Both situations distance the reader from the work, keeping before his eyes only traces of it. Further discussion of the implications of the means of technical reproducibility on the work of art has been taking place since the 1930s, having as its fundamental axis the writings of Walter Benjamim; However, after almost 80 years of the trigger of this debate, the theme is still quite pertinent and, in the case of the works reproduced here, fundamental. André Rigatti's works request the physical presence of a subject to configure an aesthetic experience; not that this does not happen with the vast majority of works of art, but in this case, upon reproduction, the most delicate and elemental qualities of the work will be lost.

 

It is a work that presents itself as one body before another, directed to the look. Asks closeness and time. Proximity needed, for example, to distinguish the elements that make up a series made of adhesive vinyl on paper - white lines, applied on a white background, articulated with a few fragments of color. Detached from the paper only by a subtle difference in texture and thickness, the winding lines describe pathways whose harmony conceals an almost mechanical production process described by the artist - a crescent-shaped surface has its edges highlighted with a scalpel, generating small curves, thin, slightly irregular. Grouped in lines, with slight spacing between them, the fragments begin to describe a new configuration on the porous surface of the paper. Although each cut still retains the original surface index, the imposed arrangement makes it impossible to reassemble. Surface that becomes a line to dialogue with the surface.

 

By dealing with one of the stages of production of the work through repetitive action, the artist recovers a question present in the history of art since the 60s, about the expressive character of the work. However, the result obtained with this action, a set of small vinyl curves, is treated with great sensitivity to follow when, when applied to the paper, the pieces assume a expressive, compositional aspect. Considering the result of poetic action and its process of realization, we observe a work that establishes a possible articulation between extreme points of an artistic debate, between uniqueness and repetition, between subjectivity and coldness, normally associated with series production, between the sensitivity and the context of production of the artwork.

 

The delicate glued lines enhance its support, emphasizing its color, texture, weave, so that when writing about these works, stressing the use of empty space sounds contradictory. They are full spaces.

Paper, which supports these delicate collages, also becomes the basis for receiving another very distinct matter, oil paint. Covered now by a layer of color, the paper is revealed in small areas, allowing us to see characteristics of the matter in the light grease that invades the white spaces and, in the thickness of the layered paint, in procedures similar to those used with the vinyl with regular brush strokes. Here too, the areas of color seem to be in a borderline position, between expressive gesture and industrial painting processes, which generate flat surfaces.

 

If since the modern experiences the artistic categories have lost their rigorous contours, it seems innocuous to call these works drawing or painting. However, in relation to the artist's production processes, we can think of proposals that discuss drawing and painting, but also propose to people a slower, delicate, subjective aesthetic experience. One body sensitive to another. An experience that cannot be replaced, only shared.

 

Simone Landal - 2008